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Atletas - 01/08/2018 às 10:42:01
APÓS TUMOR, JOVEM RETOMA SONHO DE JOGAR FUTEBOL NO TIME DE AMPUTADOS DA PONTE
Hugo "Boy" foi diagnosticado com um tumor no joelho em 2011, quando iria disputar a Copa São Paulo; hoje, atua como meia e já tem passagem pela seleção brasileira da modalidade

Por WILKER
BELO HORIZONTE, MG
Hugo "Boy" - Por Luiz Felipe Longo*, Campinas, SP - 31/07/2018 10h10 - Atualizado há 22 horas (Foto: Luiz Felipe Longo/GloboEsporte.com)

Muitas crianças alimentam o sonho de jogar futebol. Elas brincam de bola na rua, em campos de terra, participam de peneiras... Tudo com o intuito de ser notado e conseguir espaço em algum clube. Mas o que você faria se, prestes a realizar o sonho, sofresse um duro golpe e tivesse de repensar todos os objetivos de vida?
Foi o que aconteceu com Hugo Ricardo Boy quando tinha 17 anos, em 2011. Praticante de caratê na infância, ele passou em teste no Lemense, time da cidade onde morava, e iria disputar sua primeira Copa São Paulo de Futebol Júnior, o mais importante torneio das categorias de base do país. Durante a fase de preparação, no entanto, ele descobriu um tumor ósseo e precisou deixar os gramados. Foram anos de luta pela vida que lhe apresentaram novas perspectivas para retomar o sonho interrompido. Após superar o drama, ele voltou à ativa, agora como meia do time de amputados da Ponte Preta.
- Nos treinamentos, meu joelho começou a doer e inchar. Procurei ajuda médica e depois da realização de exames decobri que estava com um tumor chamado Osteossarcoma, que acomete crianças e adolescentes. Precisei sair do time e não consegui treinar muito com a galera - relembrou o jovem, que atualmente está com 25 anos e é formado em educação física.

Hugo participa de treino do time de futebol da amputados no estdio Moiss Lucarelli Foto Luiz Felipe LongoGloboEsportecom
Hugo participa de treino do time de futebol da amputados no estadio Moiss Lucarelli Foto Luiz Felipe LongoGloboEsportecom

Hugo participa de treino do time de futebol da amputados no estádio Moisés Lucarelli. (Foto: Luiz Felipe Longo/GloboEsporte.com)
Hugo fez todo o tratamento em Barretos, no Hospital do Câncer. Ele conta que, no início, os médicos disseram que seria necessária apenas a colocação de uma prótese interna no local afetado, mas o tumor aumentou de tamanho, e foi preciso realizar a amputação da perna direita.

"Minha mãe não quis assinar o termo de responsabilidade. Eu estava para fazer 18 anos, então eu mesmo assinei. Tinha muita dor no joelho, não conseguia dormir à noite e tomei a decisão. Foi a melhor coisa que fiz. Depois de amputado é batalhar, porque dificuldade todo mundo tem"
Mas a carreira como jogador teve uma reviravolta no ano passado. Hugo viu postagem em uma rede social a respeito do futebol de amputados e foi apresentado a Maurício Mendes, o Juninho, coordenador do projeto da Ponte Preta. O encontro rendeu um convite para um amistoso.
- Quando eu cheguei para ver como jogavam, todo mundo de muleta, eu não coloquei muita fé, falei: “não vai sair muita coisa daqui”. A galera correndo, eu olhei e falei: “se eles fazem, por que eu não posso?”. Sempre fui ligado ao esporte, fazia caratê, então tinha um certo equilíbrio e a adaptação não foi tão difícil - completou o jovem.
A adaptação realmente foi rápida. Em quase um ano de carreira, Hugo "Boy", como é chamado no meio, se transformou em um dos destaques da Macaca e já tem passagem pela seleção brasileira da categoria.

O projeto
A parceria do time de futebol de amputados com a Ponte Preta começou em 2017, mas foi idealizado há seis anos por Maurício Mendes, o Juninho. Ele nasceu com uma deficiência chamada fêmur esquerdo curto congênito e viu na modalidade a chance de praticar esporte.
Juninho  o idealizador do projeto da Ponte e um dos principais nomes da categoria no Brasil  Foto Divulgao  Ponte Press
Juninho é o idealizador do projeto da Ponte e um dos principais nomes da categoria no Brasil (Foto: Divulgação / Ponte Press)

"É a realização de um sonho na questão de você superar seus limites, todas aquelas palavras negativas, as piadinhas, e você usa isso a seu favor e coloca em prática. Além de realizar o meu sonho, que é ser jogador de futebol, hoje eu consigo realizar o sonho do resto do pessoal", afirmou o meia.
Juninho, além de jogador, também é coordenador no projeto, assim como Willian Leite, responsável pela parte burocrática, e César Augusto Gonçalves da Costa, treinador da equipe. Os dois útlimos estão há cerca de um ano e ajudam sem receber qualquer tipo de compensação financeira. Na última sexta, a equipe treinou pela primeira vez no Estádio Moisés Lucarelli, em uma iniciativa inédita no cenário nacional.
- O pagamento é emocional, não tem pagamento melhor que esse, é tudo feito de maneira voluntária. Você muda muito, toda uma percepção de vida. Você aprende que uma derrota não é na verdade uma derrota - explica Willian.

Willian Leite  esquerda e Juninho  direita so dois dos coordenadores do time de Campinas Foto Luiz Felipe LongoGloboEsportecom
Willian Leite (à esquerda) e Juninho (à direita) são dois dos coordenadores do time de Campinas (Foto: Luiz Felipe Longo/GloboEsporte.com)

Falta de patrocinadores

Em países da Europa, o futebol de amputados é bastante popular. Na Inglaterra, Manchester City, Arsenal e Everton possuem times na modalidade, enquanto na Turquia o esporte é até mesmo transmitido ao vivo em televisão aberta. Só que no Brasil a situação é diferente.
No time da Ponte, a parceria permite que seja usado o nome e os uniformes. Custos com viagens e outras despesas são pagos graças à venda de rifas e adesivos, e muitas vezes com dinheiro tirado do próprio bolso dos jogadores e de doações.

- Estamos em busca de patrocinadores e empresários que queiram abraçar o projeto. Todo mundo acha bonito, aí na hora de ajudar não é mais tão bonito assim. Muitos atletas não conseguem vir treinar porque a gente não consegue dar suporte. Meu sonho é que nosso time consiga, pelo menos, bancar as despesas dos atletas - finalizou Juninho.

* Estagiário, colaborou sob a supervisão de Heitor Esmeriz

Fonte: globoesporte.globo.com